
A palavra diabo, oriunda do grego diabolos (aquele que divide, que calunia), não possui um feminino gramatical estabilizado em português contemporâneo. Os dicionários de referência registram o par demônio/demôna, mas não há uma forma feminina normatizada para diabo. O termo diaba existe, sem nunca ter adquirido o status de verdadeiro equivalente feminino no uso comum: é percebido como arcaico ou familiar.
Essa ausência lexical não impediu a tradição cristã de construir, século após século, uma figura feminina do mal com contornos muito precisos. Compreender como essa figura se formou implica desentrelaçar três fios distintos: a gramática, a teologia e a demonologia medieval.
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Diaba, demôna, súcubo: três palavras para um vazio lexical
O português dispõe de vários termos para evocar uma entidade maléfica feminina, mas nenhum funciona como um feminino simétrico de diabo. A diferença com o par demônio/demôna é significativa: demôna figura no dicionário Usito da Universidade de Sherbrooke como forma feminina atestada, enquanto diaba pertence mais ao registro popular ou literário.
Ao explorar o feminino de diabo no Familles Connectées, constatamos que essa questão linguística ultrapassa amplamente a gramática para tocar na representação do mal na cultura ocidental.
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O terceiro termo, súcubo, ocupa um lugar à parte. A tradição cristã medieval construiu um par explicitamente genérico para figurar a dimensão sexual do demônio: o íncubo (masculino, que se une às mulheres) e o súcubo (feminino, que se une aos homens). Esse par íncubo/súcubo desempenha de fato o papel de masculino/feminino do diabo em contexto sexual, sem passar por um feminino gramatical da palavra diabo em si.
- Diaba: uso literário e familiar, sem status lexicográfico normatizado como feminino de diabo
- Demôna: feminino atestado de demônio nos dicionários contemporâneos, mas demônio e diabo não são sinônimos em teologia
- Súcubo: figura feminina do demônio sexual na demonologia medieval, sem vínculo gramatical com a palavra diabo

Eva e a diaboli ianua: gênese teológica da mulher diabólica
A associação entre a mulher e o diabo na tradição cristã não se baseia em um feminino da palavra, mas em uma leitura teológica da Gênese. Tertuliano, um dos primeiros grandes autores cristãos de língua latina, qualificava toda mulher de diaboli ianua (porta do diabo) em seu tratado sobre a toalete das mulheres.
Essa fórmula lançou as bases de uma identificação duradoura. Baseando-se no relato da queda, a tradição patrística construiu a ideia de que Eva, ao ceder à tentação da serpente, havia aberto uma brecha pela qual o mal se introduziu na criação. A mulher tornava-se não o diabo, mas seu instrumento privilegiado.
A operação teológica é precisa: o mal não é atribuído a um diabo feminino, mas à natureza feminina em si. Como destacam os historiadores Bertrand Lançon e Adeline Gargam em sua História da misoginia, essa identificação serviu de álibi para “ontologizar” o mal na mulher. A figura de Eva funciona então como um arquétipo permanente, independente de qualquer ação individual.
Lubricidade e natureza feminina na teologia medieval
A dimensão sexual dessa diabolização merece ser analisada. A teologia medieval gradualmente deslocou o centro de gravidade do pecado original para a sexualidade feminina. A lubricidade atribuída à mulher tornou-se uma fonte ontológica do mal, um argumento recorrente nos tratados de demonologia.
Esse deslizamento explica por que o par íncubo/súcubo ganhou tanta importância na literatura teológica. O súcubo, demônio assumindo uma forma feminina sedutora para corromper os homens, cristalizava a convicção de que a sedução feminina era a arma do diabo.
Bruxas e bode sabático: o feminino do diabo em tribunal
A caça às bruxas representa o momento em que essa construção teológica produziu seus efeitos mais concretos. A figura da bruxa constitui, de fato, a versão operacional do “feminino do diabo”: uma mulher acusada de ter feito um pacto carnal com Satanás.
O Malleus Maleficarum (o Martelo das Bruxas), publicado no final do século XV, sistematiza essa associação. Os inquisidores desenvolvem o argumento de que as mulheres são mais suscetíveis a sucumbir às seduções demoníacas devido à sua natureza, herdada de Eva. O símbolo do bode sabático, figura animal do diabo durante os sabás, reforça o caráter sexual da acusação.
As práticas e rituais descritos nos processos de bruxaria desenham um retrato coerente. A bruxa não é apresentada como um diabo feminino autônomo, mas como uma serva do diabo, ligada a ele por um pacto que inverte os sacramentos cristãos. Essa subordinação é reveladora: mesmo em sua versão mais radical, a tradição ocidental nunca produziu um verdadeiro diabo feminino dotado de um poder próprio.

Lilith e as tradições paralelas: um contra-modelo ao feminino do diabo cristão
A tradição judaica oferece um contraponto com a figura de Lilith, frequentemente citada como a primeira mulher de Adão em algumas interpretações rabínicas. Lilith recusa a submissão, deixa o jardim do Éden e torna-se uma entidade demoníaca autônoma. Sua figura difere radicalmente da de Eva: enquanto Eva é passiva (cede à tentação), Lilith é ativa (escolhe a transgressão).
Essa distinção tem consequências sobre a questão do feminino do diabo. Lilith se aproxima mais de um demônio feminino por completo do que de uma mulher diabolizada. Sua posteridade no satanismo contemporâneo e nas reinterpretações feministas confirma essa leitura: ela funciona como um símbolo de emancipação invertido, uma figura do mal que tira seu poder de sua recusa à hierarquia.
- Eva: figura da queda por fraqueza, instrumento do diabo na teologia cristã
- Lilith: figura da rebelião, demônio feminino autônomo na tradição judaica
- O súcubo: entidade sexual feminina, sem personalidade própria, ferramenta de corrupção na demonologia
O feminino de diabo, portanto, não existe como palavra, mas como construção cultural em várias camadas. A língua portuguesa resistiu à criação de um termo simétrico, enquanto a teologia, a demonologia e o direito inquisitorial multiplicaram as figuras femininas do mal. O vazio gramatical coexiste com uma sobreabundância simbólica, e é precisamente essa lacuna que torna a questão mais rica do que uma simples curiosidade lexical.